23/03/2017

A arte de não desistir

Essa semana eu tive uma revira volta na minha vida. E em um momento, no ponto de ônibus aqui na cidade onde moro, me deparei com uma situação que ficou me intrigando por muito tempo. Estava esperando o ônibus para ir embora para casa, cansada depois de um dia extremamente exaustivo -e muito feliz-, quando reparei em uma menina que estava no sinaleiro fazendo malabarismo em busca de umas moedas. Ela estava com shorts jeans, uma blusa de alcinha, uns acessórios, óculos de sol e coque nos cabelos. Bem casual e bonita. Aparentava ter mais ou menos a minha idade (tenho 21 anos). O ônibus, para meu azar -ou até mesmo sorte-, demorou bastante para passar. Enquanto isso fiquei a observá-la. Ia para o sinal com suas bolinhas, abria um sorriso e dizia bem alto: "Boa tarde, boa tarde! Vim trazer um pouco de malabares para vocês, espero que gostem!", então começava seu número. Terminava, batia palmas para si mesma, fazia uma cara de 'mais ou menos' querendo indicar que não tinha sido tão boa assim e começava a andar entre os carros. A princípio fiquei com pena dela. Todos os carros com as janelas fechadas, sem contar as que se fechavam quando ela chegava perto. No fim, nenhuma moeda. O sinal abriu, aqueles carros foram embora, meu ônibus não veio. O sinal fechou e mais uma vez a moça foi fazer seu número. Foi para os carros, janelas fechadas e nenhuma moeda. Isso aconteceu pela terceira vez. Na quarta vez, as bolinhas caíram no chão e ela não conseguiu recuperá-las antes da luz verde começar a piscar. Ela pegou as bolinhas e disse: "dessa vez não deu." e saiu da rua. Na quinta vez que o sinal fechou, pensei que ela fosse desistir. Me coloquei no lugar dela e pensei com meus botões: "eu desistiria". O sinaleiro ficou alguns segundos fechado e achei que ela realmente tinha desistido. Desviei o olhar intrigada com a demora do ônibus e quando olhei para a faixa de pedestre e o semáforo, ela estava lá, sorridente, fazendo seu número como se fosse a primeira vez.O ônibus chegou e eu fui embora para casa. Talvez para algumas pessoas essa seja uma história boba, de mais uma pessoa pedindo dinheiro no sinal, "mais um ocioso que não gosta de trabalhar querendo grana fácil", como já ouvi uma vez. Mas eu comecei a comparar aquela moça comigo. Quantas vezes eu desisti por achar que não tinha mais jeito ou mais forças para continuar...Quantas vezes achei o sol ardente demais para caminhar e não saí para procurar emprego por que já tinha feito umas 15 entrevistas e ninguém havia me chamado... Quantas vezes alguém me disse algo hostil e eu fui chorar, sem reação, com o pensamento de que eu realmente era aquela pessoa ruim que haviam me falado que eu era... Então olho de volta para a moça, e depois de fecharem tantas janelas do carro, ela estava lá, sorridente de novo, tentando de novo, se levantando de novo, começando tudo de novo. Eu não tinha dinheiro, mas fiquei com vontade de dar algo a ela, nem que fosse um abraço, e dizer que a lição que ela havia me ensinado sem nem abrir a boca ou chegar perto de mim, eu havia demorado muito para entender. Aquele dia eu havia conseguido o emprego que eu queria há muito tempo. Quando recebi a ligação, já havia desistido de todas as possibilidades, estava cansada física e emocionalmente, estava sobrecarregada com o peso da culpa de não me achar boa o suficiente para ocupar o cargo das empresas pelas quais havia passado, fazendo entrevistas e mais entrevistas sem retorno. Então me vi empregada, e aquela moça tentando ganhar algo naquele dia quente, debaixo do sol das 16h. Moça, acho que você nunca vai ler esse texto, mas se um dia ler, saiba que você ganhou uma admiradora secreta. Não sei se você chora quando chega em casa depois de um dia sem lucros,não sei como é sua casa, nem se tem uma. Mas se chorar, saiba que é seu direito fazer isso. Você tem a garra que eu luto pra ter,e inconscientemente, me fez entender que desistir não pode ser uma opção. Obrigada por me mostrar que sempre é tempo de começar de novo e sempre há chances de vencer uma batalha. E se tudo desmoronar, eu pego meus caquinhos, assumo que não deu, me dou o direito de descansar e então começo novamente.

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